




Hoje foi manhã de rumar ao Chiado, devido a uma malita em pele da Adolfo Dominguez que tinha comprado há um ano, que começou a descoser-se por todos os lados, levei à loja, e honra seja feita à marca, dispuseram-se imediatamente a enviá-la para a fábrica, submeter a testes de qualidade e caso não tivesse reparo possível então seria me dado um vale no valor da mala para adquirir outro produto. Sem dúvida um bom serviço prestado aqui à Cliente.
Hoje foi necessário ir lá buscar a minha “piquena”. Contudo não sem antes dar um saltinho na Sephora, local onde não colocava os pés há anos, dei uma voltinha, vi as novidades e quase uma escolta policial, o que me intrigou, senão quando chego à caixa e vejo uma senhora bem parecida a despejar da mala um frasco enorme de perfume, uns pincéis e outra parafernália do género, a argumentar “mas isso são coisas minhas, eu saí e não apitou, isso está tudo pago” a filha em defesa da mãe num tom pouco convincente “como isto é injusto”, enfim zarpei dali o mais rapidamente possível pois não queria assistir a um mau espectáculo para o qual não tinha comprado bilhete, sob pena de sentir imensa vergonha em lugar de quem não a tem.
Entrei na lojinha ao lado: Starbucks, senão que mal entro na loja me deparo com um casal de senhoras, uma das quais vestida com uma camisolinha tigresse ou zebresse, enfim como quiserem, para mim numa palavra: “brega” e a modos que deitada na cadeira, isto é, com uma perninha esticada e sua botona poisada no assento em frente, e ali estava descontraidamente. Enquanto esperava por ser atendida, deitei alguns olhares censuradores, mas de nada serviu. Quando fui atendida, não resisti a desabafar com o empregado, que não achava normal a Sr.ª estar com as botas onde a seguir alguém se ia sentar, que a Sr.ª o fizesse em casa, não me dizia respeito, agora ali! O rapaz olhou para a colega, encolheu os ombros e arguiu: “sabe, ainda por cima não são portuguesas…”, ao que prontamente respondi “ao menos que nos valha isso!” A mademoiselle deve ter percebido alguma coisa, e uns minutos depois lá tirou a bota no assento.
Desta minha reacção se por um lado, me achei um bocado velhaca por estar a fazer o reparo, e quase que me senti uma daquelas velhotas que reclamam por tudo e por nada, por outro lado achei verdadeiramente indelicada a postura de indecoro em que a Sr.ª se apresentava, só faltava a mini-saia e a perna aberta… Gostava de saber a vossa opinião, fui de facto muito picuinhas?





Do fundo do Coração, quero desejar a todos um Santo Ntal, cheio de Paz, Amor e muita Alegria!

Em vésperas de passagem de ano e como é hábito nesta altura do ano, é época de balanços, novas resoluções, etc etc, se bem que tal como iniciei este blogue continuo a achar que cada dia é um óptimo dia para mudar alguma coisa e não é necessário esperar pelo ano novo... mas em jeito de balanço, estou absolutamente de ressaca por este ano só ter feito 1 (sim umazinha) viagem... :*( Isto agrava-se porque o ano passado fiz 5 (Paris, Barcelona, Gerês, Maiorca e Suiça) e habituei-me mal... este ano só fui ali a Madrid... Espero em 2010 voltar em força às viagens, contudo agora enquanto proprietária de um "imóbel" vai ter de ser pão e água todo o ano para depois durante alguns dias ser a desbunda total.

No início da 2ª parte desta obra é nos dado a conhecer que Kitty se encontra doente devido ao desgosto amoroso que teve com Vronski ao afirmar que “tudo o que havia de bom em mim, parece-me por vezes, ter cedido o lugar ao mal…” (pág. 122). Os médicos aconselham uma viagem ao estrangeiro, uma mudança de ares. A sua irmã Dolly também a visita e ficamos a saber que o seu relacionamento com o marido e as suas suspeitas de infidelidade continuam a pairar sobre o casal, contudo assistimos a uma resignação por parte de Dolly a essa situação “preferia, pois, deixar-se enganar, ao mesmo tempo que desprezava o marido e se desprezava a si mesma por causa dessa fraqueza” (pág.118).
Em Petersburgo, Vronski e Anna cada vez se aproximam mais e tal é comentado pois partilham o mesmo grupo social da princesa Betsy que vai dar todo o seu auxílio ao casal de amantes. Aos olhos da sociedade da época, a posição de Vronski jamais se tornaria ridícula pois “um homem podia parecer-lhes ridículo amando sem esperança uma rapariga ou uma mulher inteiramente livre, jamais o era cortejando uma mulher casada, arriscando tudo para a seduzir. Este papel era belo, grandioso.” (pág. 125), contudo Anna conforme fora advertida pelo marido “existem certas conveniências sociais que não podem ser violadas imprudentemente. (…) Os teus sentimentos são com a tua consciência, mas eu sou obrigado (…) a lembrar-te os teus deveres. Não foram os homens, foi Deus que uniu as nossas vidas. Só um crime pode quebrar este laço e esse crime traz, atrás de si, o castigo.” (pág. 141). A nível social a posição de Anna era alvo de censura pública pois “A maior parte das mulheres, ciumentas de Anna e fartas de ouvirem sempre tratá-la de «justa», viam sem desagrado as suas predições verificadas e só esperavam a sanção da opinião pública para a esmagarem com o seu desprezo: conservavam já de reserva a lama que lhe atirariam quando chegasse o momento.” (pág.166). É de facto arrepiante a actualidade desta obra e da sua crítica social.
Ao final de um ano de sedução, a relação consuma-se e é interessante verificar a reacção de ambos, pois Anna sente-se culpada e uma criminosa, “quanto a ele, sentia-se como um assassino diante de um corpo inanimado da sua vítima (…) Mas por maior que seja o horror do assassino diante da vítima, tem de esconder o cadáver, de cortá-lo em bocados, de aproveitar-se do crime cometido.” (pág.143) julgo que tal comparação não é em vão, pois de certa forma Vronski sabe que está a lentamente a destruir a vida de Anna, contudo o faz sem remorsos. Verifica-se uma grande alteração na personalidade de Anna “Sim, antigamente ela era infeliz, mas orgulhosa e tranquila. E agora, por mais que faça para não o mostrar, perdeu a calma e a dignidade.” (pág. 175)
Levine refugia-se na sua vida e trabalho no campo por forma a esquecer a humilhação que sofreu perante a recusa de Kitty em aceitar o seu pedido de casamento. “Levine chegou mesmo a aguardar com impaciência a notícia do casamento dela, esperando que esta notícia o curaria como um dente que se arranca” (pág. 145) Stepane Arcadievitch visita Levine, pois tinha uns negócios de venda de terrenos a tratar e informa Levine de que Kitty não se casou e de que está gravemente doente, perante tal notícia Levine sente “um secreto prazer (…) por saber que aquela que tanto o fizera sofrer sofria também agora.” (pág. 158)
Considero bastante relevante a reacção de Vronski face à notícia de que Anna está grávida, pois “a notícia fizera nascer nele, no primeiro momento, um acesso de repugnância mais violento do que nunca” (pág. 178) Segue-se a corrida de cavalos em que Vronski participa e a égua que montava, por sua culpa partira a espinha dorsal e teve de ser abatida. Tal provocou em Vronski um sentimento de infelicidade, culpa e tal acontecimento marcou-o durante muito tempo. Perante a desgraça e acidente de Vronski na corrida, Anna na tribuna não consegue esconder os seus sentimentos e tal é notado pelo seu marido, que em casa a confronta com tal reacção ao que ela descontrolada, com coração na boca lhe confessa “estive e estou ainda desesperada. Embora esteja a ouvi-lo, é nele que penso. Amo-o e sou amante dele. Não posso suportá-lo a si, temo-o, odeio-o… Faça de mim o que quiser” (pág.200)
É de notar que o marido de Anna, ao desconfiar da fidelidade da esposa, altera o seu comportamento para com o filho de ambos, começando a tratá-lo com frieza e chamando-o simplesmente de “mancebo”, esquecendo a união de sangue que existe com o filho, tratando-o como se fosse apenas filho de Anna, e repercutindo na criança a desavença com Anna.
Kitty encontra-se com a sua mãe numa instância termal na Alemanha, aí trava amizade com Varinka, filha adoptiva da Sr.ª Stahl. Kitty considera Varinka um ser superior em termos espirituais e a toma como padrão e tenta adoptar um comportamento e atitudes semelhantes às de Varinka, a ela confessa o seu desgosto amoroso e fica a saber que também Varinka foi preterida por um homem, contudo superou tal acontecimento e não se sente humilhada por tal lhe ter acontecido, afinal “não há rapariga nenhuma que não tenha passado por isso” (pág. 208). O relação de amizade com Varinka ajuda Kitty a superar o desgosto, pois “um mundo novo, muito diferente do seu, um mundo todo de beleza e nobreza, se descobriu diante de si: daquela altura pôde julgar o seu passado com sangue-frio. Aprendeu que, fora da vida instintiva que até aí fora a sua, existia uma vida espiritual na qual se penetrava pela religião. Esta religião em nada se parecia com aquilo que praticara desde infância e que consistia em assistir à missa e às vésperas na Casa das Viúvas, onde se encontrava conhecidos, e em aprender de cor textos eslavões com o auxílio de um eclesiástico. Era uma religião nobre, misteriosa, que despertava os pensamentos mais elevados e os sentimentos mais puros, e em que se acreditava não por dever mas por amor.” (pág. 209)
Estão maravilhosamente descritas as cenas de caça e a corrida de cavalos e aqui é inevitável a comparação com o nosso Eça de Queiróz, nomedamente n’Os Maias e o capítulo à cena no Hipódromo ou em Sintra, e basta dizer que Os Maias é um dos meus livros preferidos, para explicar o quanto eu estou a adorar esta obra, não consigo parar, todos os dias sinto uma imensa ânsia de chegar a casa e mergulhar nestas páginas…

A frase inicial da obra é como que um presságio do que se vai desenrolar por aquelas quase 700 páginas, “As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira” (pág. 9) e o que Tolstoi se compromete a relatar nesta obra é exactamente as peculiaridades de uma família infeliz com enquadramento da sociedade russa do século XIX.
A obra começa por nos descrever a tensão que paira sobre a família Oblonski , em razão da descoberta por Dolly do adultério cometido pelo seu marido (Stepane Arcadievitch) com a preceptora dos seus 5 filhos. “Sincero consigo mesmo, Stepane Arcadievitch não se iludia: não experimentava qualquer remorso e via bem que o não sentia. Este homem de 34 anos, bem-parecido e de compleição amorosa, não podia, na verdade, arrepender-se de pôr de lado a mulher, apenas um ano mais nova que ele e mãe de sete filhos, cinco dos quais vivos; lastimava apenas não ter escondido melhor o jogo. Mas compreendia toda a gravidade da situação e lamentava a mulher, os filhos e a si mesmo” (pág. 11) ou como mais tarde desabafa com o seu amigo Levine “Tua mulher envelhece, ao passo que a vida ferve ainda dentro de ti. Sentes-te, de repente, incapaz de amar com amor, por maior que seja o respeito que lhe tenhas. Nesta altura, o amor surge de imprevisto, e aí está tudo perdido!” (pág. 45) É esta a verdade e crueza que norteia a escrita de Tolstoi nesta obra.
Seguidamente somos dados a conhecer as razões que levaram Levine, um homem do campo a deslocar-se até Moscovo: pretende pedir em casamento irmã de Dolly, kitty, por quem está perdidamente apaixonado. Belíssima a descrição da cena em que Levine vai ao recinto de patinagem para ver Kitty: “Nada na sua indumentária nem na sua atitude a distinguia dos que a rodeavam; para Levine, no entanto ela sobressaía da multidão como uma rosa num ramo de ortigas, ela era o sorriso que tudo ilumina em redor (…) evitando olhá-la de frente, como ao Sol; mas, tal como ao Sol, não precisava de a olhar para a ver.” (pág.34)
A jovem Kitty de 18 anos está dividida entre dois pretendentes: Levine e Vronski. O pai apoia o enlace com Levine, enquanto que a mãe com Vronski. E a pequena pondera os prós e contras de cada um: “Levine ama-a de certeza, esse amor lisonjeava-a, era-lhe agradável pensar nele. Pelo contrário, experimentava um certo constrangimento ao pensar em Vronski: era um perfeito homem de sociedade, sempre senhor de si e de uma simplicidade encantadora; e, no entanto, ela sentia nas suas relações qualquer coisa de falso (…) ao passo que em Levine tudo era tão franco, tão fácil, tão natural. Em compensação, o futuro, com Vronski, apresentava-se-lhe deslumbrante; com Levine, envolvia-o um nevoeiro. ” (pág. 50). Face ao pedido de Levine para ser sua mulher, Kitty responde: “É impossível… Perdoe-me” (pág. 51), a sua decisão parece tomada. Ao saber da recusa de Kitty ao pedido de noivado de Levine, Vronski comenta com Stepane Arcadievitch "Deve ser, com efeito, uma situação penosa. É por isso que quase todos nós preferimos lidar com caixeiras. Com elas, ao menos, fracassamos, só temos de acusar a bolsa: a dignidade não está em jogo..." (pág. 62).
De forma a resolver o conflito familiar, a irmã de Stepane Arcadievitch (Anna Karenine) ruma a Moscovo, na estação de comboio encontra-se o próprio à espera da irmã e também Vronski que espera pela sua mãe e aí Tolstoi desbrava o que vai no pensamento de Vronski pela sua progenitora “Sem que desse conta disso, não tinha por ela nem respeito nem verdadeira afeição; mas a sua educação e os costumes da sociedade não lhe permitiam admitir que pudesse testemunhar-lhe outros sentimentos que não fossem os de um filho respeitoso e submisso” (pág. 62). E foi na carruagem que se deu o encontro de Vronski e Anna que será determinante para todo o desenrolar da trama “parou para deixar passar uma dama que o seu tacto de homem de sociedade lhe permitiu classificar, nem simples olhar, entre as mulheres de melhor posição (…) quando, de súbito, se virou, sem poder resistir ao desejo de a ver outra vez; sentia-se atraído, não pela beleza dela, ainda que a fosse grande, nem pela elegância discreta que emanava da sua pessoa, mas pela expressão doce do seu encantador rosto. E ela também se voltou. Durante um rápido instante, os seus olhos cinzentos e brilhantes que as pestanas espessas escureciam, detiveram-se nele com benevolência, como se o reconhecessem.” (pág.63). Na estação de comboio entretanto ocorre um acidente em que um homem morre debaixo do comboio o que faz Anna confessar “é um mau presságio” (pág.66)
Anna depois de resolver o conflito familiar do seu irmão e cunhada, inicia a sua vida social em Moscovo, nomeadamente com a jovem Kitty, que a convida para ir ao próximo baile, onde espera um feliz resultado com Vrosnki. Contudo nesse baile, onde Kitty depositara tantas esperanças não corre conforme esperado e torna-se evidente para Kitty a relação de sedução existente entre Anna e Vronski. Anna segue rapidamente para São Petersburgo, a tentar fugir rapidamente dos seus sentimentos de atracção, contudo no mesmo comboio segue Vronski que lhe confessa de que vai para onde ela for, Anna confessa para si que “acabara de ouvir as palavras que a sua razão temia, mas que o seu coração desejava” (pág.100)
Em São Petersburgo, onde está destacado como oficial, é nos dado a conhecer a outra faceta de Vronski onde o próprio se descreve “Nasci e morrerei na boémia” (pág.110).
É um livro de leitura relativamente acessível, a tradução de que disponho não é melhor (tradução de José Saramago) ao que parece a única que existe traduzida directamente do russo é a da Relógio d'Água, contudo a sua leitura é absolutamente viciante e apaixonante, com descrições soberbas, os pensamentos e reflexões de enorme acutilância e realismo, é uma leitura que recomendo vivamente, não obstante correr um enorme risco com este conselho pois ainda só discorri 112 páginas, mas acho que não me vou arrepender… Ansiosa pela 2ª parte…
Peço desculpa pela qualidade de citações do livro que aqui transcrevi, mas é inevitável perante a qualidade da escrita de Tolstoi.




